“Será que toda guerra é ruim? Será que toda paz é boa?” As perguntas parecem inusitadas em um congresso sobre conciliação. Mas com essa provocação os palestrantes da segunda mesa-redonda, ontem à tarde, 23 de novembro, intitulada “O Brasil da diversidade: lidando com as diferenças”, convidaram as pessoas presentes a pensar sobre a importância do conflito e como, a partir dele, é possível chegar a um acordo sustentável, ou seja, à paz.
O diretor-executivo de Desenvolvimento de Pessoas da Escola Judicial Desembargador Edésio Fernandes (Ejef), Paulo de Figueiredo, coordenador da mesa, já prenunciava que o debate estimularia uma mudança de perspectiva. “Quero convidar todos aqui a embarcar em uma viagem, em um trenzinho mineiro. Sempre nos tornamos pessoas diferentes ao final de um passeio desse tipo, pois vemos paisagens, pessoas, hábitos e costumes que não são iguais aos nossos,” disse.
O consultor de empresas Leo Imamura, especialista em Inteligência Estratégica Chinesa, começou sua palestra dizendo que sua família retrata a diversidade brasileira, afinal, ele tem ascendência japonesa e foi estudar sobre a China nos Estados Unidos. Sua esposa tem ascendência italiana, espanhola e portuguesa e seus filhos são brasileiros.
Ele disse que é importante se distanciar de uma cultura para poder percebê-la criticamente e não ficar míope. Com esse argumento, ele afirmou que o estudo da cultura chinesa tem muito a dizer sobre os costumes brasileiros. “Como lidar, no Brasil, com a diversidade e com o complexo de inferioridade por sermos um país mestiço?”, questionou. Para Leo Imamura, o “Tratado da arte da guerra” (uma obra militar escrita durante o século IV a.C. pelo estrategista Sun Tzu) mostra que é preciso perceber a diversidade. “A sabedoria chinesa ensina que o inimigo é aquele que está do outro lado, que tem outros interesses”, disse Leo.
A importância da guerra
Discorrendo mais sobre os ensinamentos chineses, Leo Imamura afirmou que a inteligência estratégica é mais do que identificar um cenário; é saber explorá-lo e se adaptar à situação. Porém, o consultor advertiu que “o homem que usa a estratégia para favorecer a si mesmo é um egoísta, e o egoísmo não se sustenta”. Ele disse que, no calor do conflito, é preciso ouvir o outro, ou seja, é necessário uma “feminilização” da guerra. Isso não se refere ao gênero feminino ou às mulheres, mas à energia yin, que está ligada a essa capacidade receptiva de ouvir o outro. Assim como as energias yin e yang, embora opostas, estão interligadas também a guerra e a paz tem uma correlação.
“A semente da paz está no conflito”, defendeu a fisioterapeuta Vanise Furno de Almeida Imamura, diretora e pesquisadora do Instituto de Inteligência Estratégica de São Paulo, ao abrir sua fala. Ela explicou que é comum, em uma situação de conflito, as partes quererem fugir ou fazer logo um acordo para acabar com aquela situação. Para ela, a importância da guerra é promover a paz sustentável. “Não devemos negar a guerra, pois a paz pode estar encobrindo um conflito existente. É preciso chegar à saturação da disputa. Ela deve continuar até que a solução seja alcançada, senão o conflito permanece. Só se chega a uma paz sustentável quando a guerra termina de verdade”, disse.
Virtudes da paz
Uma vez alcançada a paz, é preciso buscar a sustentabilidade das relações. É necessário cultivar as virtudes da paz. A primeira delas é a hospitalidade. Segundo Vanise Imamura, essa virtude é a base de toda a organização social, porque é o exercício de acolher o estranho, aquele que não é da sua família, que é de outra cultura, que tem um pensamento diferente. “É um momento muito delicado, pois trata-se da abertura do seu espaço para um estranho, que pode, inclusive, estar vindo para te enfrentar”, disse a fisioterapeuta.
As outras virtudes são a dádiva, a gentileza e a atenção cuidadosa. Vanise Imamura explicou que a dádiva é aquilo que uma pessoa oferece a outra, sem saber se terá algo em troca. Por outro, lado, quem recebe se sente em dívida e tem vontade de retribuir. Cria-se então a circulação da dádiva, em que a pessoa que recebe retribui, não necessariamente para a mesma pessoa. A gentileza e a atenção cuidadosa significam prestar atenção ao outro sem invadir. “É não intervir, imprudentemente, no fluxo natural dos acontecimentos. É acompanhar e não conduzir”, disse Vanise.
Os palestrantes concluíram suas apresentações dizendo que o Brasil, com sua diversidade e capacidade para entender o outro, é um país com vocação para a conciliação. “A conciliação é a tarefa nobre de ajudar as pessoas a restabelecerem seus vínculos”, disse Vanise Imamura. “Entender a diversidade é saber identificar que o que é importante para nós pode não ser para o outro e chegar a um termo de conciliação sustentável”, concluiu Leo Imamura.
Momento cultural
Ao final da mesa-redonda, os participantes do 1º Congresso Mineiro de Conciliação assistiram ao espetáculo de contos “Abrapalavra!”, de autoria da assessora especial do Projeto Novos Rumos na Execução Penal Rosana de Mont’Alverne Neto. A plateia saboreou três histórias contadas pela servidora, que teve acompanhamento do músico Cícero Gonzaga.
Extraído do site do TJMG
http://www.tjmg.jus.br/anexos/nt/noticia.jsp?codigoNoticia=25365